Sexta-feira, 14 de Outubro de 2005

-Sem consciência I

É HORA DE REFLEXÃO (XXIX)


                                                                                                      


Sem consciência (I)


 


 


 


 


“Primeiro levaram os comunistas,


mas não me importei porque não era comunista.


Em seguida levaram alguns operários,


mas a mim não me afectou porque não era operário.


Depois prenderam os sindicalistas,


mas não me incomodei porque nunca fui sindicalista.


Logo a seguir chegou a vez de alguns padres,


mas como não sou religioso também não liguei.


Agora levam-me a mim


e quando percebi já era tarde.


                                                (Bertold Brecht)


 


Num tempo em que o poema de Brecht continua actual, reflectir sobre o sentido da intervenção política e cultural, da solidariedade e do activismo, é um exercício quase obrigatório. Onde está a cultura didáctica e interventora capaz de despertar o espírito comunitário? Onde está a intervenção na vida política por parte do cidadão comum? Onde está o aprofundamento dos ideais fundamentais de cada ser humano? A negação do mundanismo? A resistência à indiferença?


 


As palavras-mestras da actualidade – banalização e vazio – não suscitam no indivíduo mais que uma conivente passividade. Atravessamos o quotidiano como se nada valesse a pena, como se não existissem já grandes ideais ou como se a vida colectiva não fizesse qualquer sentido. Verdadeiras questões do nosso tempo. O futebol? O consumismo? As guerras tecnológicas? Os Big Brothers da ascensão social? Os escândalos do jet set? O exibicionismo social? …


 


É notório que a vida quotidiana se superficializou e deixou de ser habitada por questões sociais fundamentais. A pressão fabulosa dos mass media tem contribuído para isso com as suas doses maciças de “imagens reais”, cruas e torpes, despidas de reflexão e contexto. A denuncia como acto politico dilui-se, reaparecendo na forma de sensacionalismo e conquista de shares.


 


Não admira, portanto, que o cepticismo seja a opção mais confortável para a maioria daqueles que se recusa a entrar no imediatismo. O “pensar para transformar o mundo”, em que tantas gerações acreditaram, caiu em desuso. Os próprios intelectuais invertem a marcha, menosprezando os meios académicos e as tertúlias de ideias, em prol da visibilidade mediática.


 


Procura-se ser suficientemente visível (o que equivale a dizer, suficientemente mundano), aparecendo com frequência na TV, rádio e nas colunas dos jornais, não tanto para informar e esclarecer, mas sobretudo para impressionar com discursos sedutores e descartáveis.


 


Estamos na era dos comentadores de noticias e dos analistas políticos. Acabou o tempo dos verdadeiros produtores de ideias (politicas ou filosóficas), ideias militantes e incomodas que abalavam consciências e valores. É mais cómoda a cadeira do estúdio televisivo onde a realidade aparece toda estandardizada, pronta a ser comentada, sem exigir um pingo de acção. E tudo isto num mundo onde 20% dos 6 biliões de habitantes da Terra subsistem com menos de um dólar por dia e uma em cada quatro crianças sofre de subnutrição nos países do Sul…


 


Verdadeiras preocupações sociais, quais são afinal? A globalização económica e a lógica do neoliberalismo? O terrorismo internacional e as armas de destruição maciça? A discriminação de milhares de imigrantes que têm como único futuro o exílio? Os pseudo welfare states que criam a miragem da riqueza para milhões de prevaricados ou mesmo para a dita classe média?


 


Certamente que sim. São questões fortíssimas tais como as centenas de milhar de mortos no Ruanda ou os 3 milhões em 3 anos no Congo-Kishasa, muito superiores, sem dúvida, aos 3 mil mortos do 11 de Setembro, mas politicamente muito menos importantes. Ou o modo de produção capitalista, profundamente desequilibrado, que arrasta milhares para a fome, fabrica excluídos, fomenta as migrações em massa e sustenta a discórdia internacional.


 


Mas, hoje, ser um cidadão ucraniano, romeno ou moldavo e ser obrigado a percorrer milhares de quilómetros para vir desaguar, justamente, num país como o nosso, não é uma questão que suscite grandes inquietações…


 


(Continua…)


 


IN: Revista para Chefias DIRIGIR


 


 


Fernando Tavares Ferreira


engftf@mail.pt  - http://naturezaviva.naturlink.pt

publicado por FTF às 11:39
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