Segunda-feira, 26 de Julho de 2004

- Energias renováveis: Comentário

mmatos.jpg



Pedem-me que comente sobre a utilização das energias renováveis e respectivas vantagens e desvantagens. O tema é amplo de mais para um simples comentário, mas há alguns aspectos gerais que podem ser mencionados num texto sucinto, com a certeza de que ficam muitas coisas por dizer.


O interesse pela utilização de energias renováveis é muito antigo (moinhos de vento e de água, navegação à vela), manteve-se nas primeiras instalações de produção de energia eléctrica e renovou-se a partir dos anos 70 do século XX, com o súbito aumento do preço do petróleo, a percepção de que as reservas de combustíveis fósseis eram finitas e o aumento de consciência ambiental em relação aos impactos negativos da utilização do petróleo e do carvão (fumos, cinzas, chuvas ácidas, etc.).


Mais recentemente, a preocupação com o efeito de estufa provocado pelas emissões de CO2 levou ao estabelecimento do protocolo de Quioto, com a consequente fixação, pela União Europeia, de metas ambiciosas para a percentagem de energia eléctrica obtida a partir de fontes renováveis em 2010 (no caso de Portugal, 39%). Pelas mesmas razões, assistiu-se também, nos últimos trinta anos, a uma cada vez maior preocupação com a eficiência energética e com o controlo das emissões, com reflexos na indústria automóvel e na utilização de energia na indústria (a cooperação industrial e a URE – utilização racional da energia).


Uma vez que os locais adequados para a instalação de grandes centrais hidroeléctricas já estavam em grande parte utilizados, a estratégia de aumento de recurso a fontes renováveis passou por um grande incremento da produção de electricidade a partir da energia eólica, seja em sistemas isolados como as ilhas, onde habitualmente há bons níveis de vento, seja em instalações cada vez mais importantes e tecnologicamente avançadas, ligadas às redes continentais. Também aumentou o número de aproveitamentos mini-hídricos e surgiram algumas centrais solares fotovoltaicas, assistindo-se também ao aproveitamento das marés, das ondas e da biomassa. Finalmente, num certo número de locais (como nos Açores) é possível utilizar a energia geotérmica. Em todos estes casos, as fontes renováveis são usadas para produzir electricidade.


Um outro tipo de estratégia recorre à utilização directa de energias renováveis sem recurso às redes eléctricas. O uso de colectores solares para aquecimento de água, por exemplo, permite reduzir os consumos de electricidade ou combustíveis, mantendo a qualidade de vida. Pequenas utilizações de energia solar fotovoltaica (conjugada com baterias) para alimentar instalações isoladas ou sinais de trânsito tornaram-se também frequentes. As células de combustível (“fuel cells”), capazes de produzir electricidade e calor a partir de gás natural ou hidrogénio (sem poluição), estão na fase de arranque (há alguns autocarros experimentais no Porto que recorrem a esta tecnologia), podendo vir a ser frequentes nas habitações num futuro próximo.


As vantagens do aumento da parcela energética oriunda de fontes renováveis já foram focadas atrás, mas deve salientar-se que não se trata de uma moda ou de uma preocupação exagerada: os perigos do aumento do efeito de estufa são reais, se não houver controlo das emissões de CO2, e o progressivo esgotamento das reservas de petróleo e gás natural levará a aumento constante de preços e ao aumento de conflitos pelo seu controlo, na linha do que tem vindo a acontecer no Médio Oriente desde o início do século XX. Note-se, de qualquer modo, que nunca será possível satisfazer os consumos energéticos mundiais apenas com energia renovável, pelo que os esforços para a futura utilização do hidrogénio (que, não sendo renovável, é a matéria mais abundante do Universo) têm que decorrer em simultâneo com a limitação de emissões e com a máxima utilização possível de fontes renováveis.


Neste sentido, quando se fala de desvantagens, é sempre preciso ter em conta que, cada vez que se desiste de construir (por exemplo) uma central eólica, a energia eléctrica que ela produziria vai ter que ser obtida a partir de combustíveis fósseis, com todas as consequências apontadas. Para além do preço mais elevado (na verdade, devido ao custo de investimento, a unidade de energia eléctrica obtida em renováveis é mais cara), as desvantagens são conhecidas, mas resumem-se a seguir.


Uma central hidroeléctrica inunda terrenos, pode originar a deslocação de populações, altera o meio ambiente local (mas também cria novos ambientes, com interesse turístico e de lazer). As centrais eólicas têm um impacto visual na paisagem que não é desprezável e podem afectar, em algumas situações, o ambiente de certas espécies. As centrais fotovoltaicas ocupam em geral uma grande extensão de terreno, privando-o do sol. Ou seja, como toda a restante actividade humana, há alterações e impactos que podem ser mais ou menos negativos, e têm que ser avaliados na altura de tomar decisões. Mas nunca esquecendo que, no outro prato da balança, estão os combustíveis fósseis!


Estas preocupações com o ambiente, mesmo para instalar centrais baseadas em energias renováveis, são correctas e têm levado a excluir certos locais (rede Natura 2000) como potenciais localizações de parques eólicos. No entanto, assiste-se por vezes a um exagero na menção a possíveis impactos negativos (às vezes apenas porque se pensa que talvez possa haver impactos negativos...), levando a uma sistemática rejeição de todos os sítios concretos onde se pretende instalar centrais hidroeléctricas ou eólicas. O resultado prático destas atitudes é o atraso na disponibilização da energia eléctrica oriunda de fontes renováveis, substituída por electricidade produzida à custa de combustíveis fósseis. Ou seja: para supostamente proteger o ambiente, prejudica-se na verdade o ambiente. Matéria para reflexão, não é?


Engº Manuel Matos, FEUP (www.fe.up.pt) e INESC - Porto, 5/2004


IN: Projecto "Energias Renováveis", 12º C, Guilherme, Luis e Paulo, ESAS - Maia, Junho 2004

publicado por FTF às 18:49
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Fernando a 2 de Agosto de 2004 às 10:53
Sugiro reflexão sobre a seguinte Citação: - A água e o ar, esses elementos básicos dos quais depende toda a vida, tornaram-se caixotes de lixo globais. (Jacques Cousteau, 1910-1997)... dá que pensar, não dá??


De Maria Alice Ribeiro a 27 de Julho de 2004 às 17:00
Cito o Engº Manuel Matos, que tenho o prazer de conhecer: "Estas preocupações com o ambiente, mesmo para instalar centrais baseadas em energias renováveis, são correctas e têm levado a excluir certos locais (rede Natura 2000)..." ENTÃO PORQUE FALAM NA INSTALAÇÃO DE UMA CENTRAL TERMOELECTRICA DE BIOMASSA NAS PROXIMIDADES DE AROUCA?? A Serra da Freita está incluida na Rede Natura 2000! Mesmo que a central não se situe em Arouca, irá prejudicar estas terras. Assim, QUEM TOMA MEDIDAS?? Atenção Exmo Sr Presidente da Câmara Municipal de Arouca!!!


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Marionetas: A bela adorme...

. Prémio de Jornalismo Juve...

. Festa de fim de curso CEF...

. Decoração floral de event...

. Vende-se casa em construç...

. Em Chave - Arouca, Feira ...

. - Novidade editorial

. - Novidade editorial

. - Eventos:; Linguagem ges...

. - Fórum em Oliveira de Az...

.arquivos

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Setembro 2009

. Abril 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Abril 2007

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds